Por Dr.Marcos Calmon – Psicólogo Clínico
Segundo Harriet Lerner, raiva reprimida é “Quando você passa a vida cuidando de todos, reprimindo a própria raiva e sacrificando suas necessidades para manter a paz, correndo o risco de perder a conexão consigo mesmo enquanto tenta preservar a conexão com os outros. ”
Existe aqui uma profunda desconexão com as próprias necessidades e a dificuldade de dizer “não”, sem sentir culpas plantadas na sua conta emocional gerando uma raiva reprimida.
Vejo também um corpo carregando parte daquilo que a sua mente e as suas emoções não conseguem mais processar dentro da lógica.
O corpo e a mente coexistem como uma única realidade, e as emoções não processadas podem contribuir para o comprometimento da saúde.
Viver sob estresse persistente significa prejudicar o funcionamento do sistema nervoso e, de quebra, afetar os mecanismos de regulação hormonal. O cortisol, em particular, é um dos hormônios mais envolvidos nesse processo.
E o que a medicina tradicional do Ocidente vai fazer? Tratar órgãos, sintomas, doenças e muitas vezes sem enxergar o cuidado integral que também precisa ser considerado na história de vida do paciente, incluindo suas emoções, seus relacionamentos e suas condições sociais. É importante perguntar:
O que essa pessoa viveu ou está vivendo até o aqui e agora?
Como ela tem lidado com o estresse durante anos ou décadas?
Quais são as suas necessidades ignoradas neste diagnóstico?
Nunca trate o seu corpo como uma máquina defeituosa, mas como parte de uma pessoa com uma história, emoções e necessidades reais. Ouço com frequência relatos de pessoas que têm dificuldade de dizer não, de estabelecer limites e de cuidar de si mesmas, inclusive entre aquelas que enfrentam doenças graves. Mas é fundamental compreender que a dificuldade de expressar raiva ou estabelecer limites claros favorece o surgimento de câncer, Alzheimer, problemas coronários e muitas outras patologias.
Sabemos, porém, que os estresses associados aos fatores emocionais podem influenciar a qualidade de vida, o sono, a percepção da dor e a forma como uma pessoa lida com o tratamento convencional.
A dificuldade de dizer não nasce necessariamente da fraqueza, mas pode estar diretamente relacionada às experiências precoces em ambientes familiares ruins, nos quais expressar as próprias necessidades representava um risco enorme.
Em contextos nos quais dizer não ou expressar raiva podia significar perder o amor, uma criança pode ter aprendido a silenciar os seus sentimentos e a se perceber como um peso na vida dos outros.
Com o passar do tempo, já na fase adulta, essa mesma pessoa pode aprender a silenciar as próprias necessidades, a priorizar constantemente os outros e a associar o autocuidado à culpa. Mas, enquanto cuida de todos, pode começar a se afastar de si mesma.
Até que um dia, o esgotamento físico e emocional a obrigue a reconhecer aquilo que, durante tanto tempo, foi ignorado e agredido por aqueles que deveriam ser seus melhores parceiros de vida.
Quando aprendemos a reconhecer os nossos limites, aprendemos a regular as nossas emoções e estabelecemos uma relação de cuidado mais saudável com o próprio corpo.
O corpo não precisa de perfeição estética, mas precisa de cuidados reais, escuta e respeito contínuo.
Entenda que autocuidado não é apenas adotar um novo suplemento. É reconhecer aquilo que lhe ensinaram a reprimir, compreender os efeitos disso na sua vida e buscar ajuda enquanto há tempo para construir uma relação mais amigável entre a sua mente e o seu próprio corpo, em busca de maior harmonia e validação.
E nunca se esqueça: “Sentir a si mesmo profundamente é o primeiro grande passo para se libertar de verdades que geram saúde mental .”
Dr. Marcos Calmon
Psicólogo Clínico
CRP 32.619/05



