Um novo paradigma para se viver o sentido da liberdade interior
Por Dr. Marcos Calmon – Psicólogo Clínico, Gestalt-terapeuta
Você já deve ter escutado em algum lugar:
“O passado não existe mais. O futuro ainda não chegou e o único tempo em que podemos viver e agir, é transformando o agora. ” (Fritz Perls, criador da Gestalt-Terapia). Sobre esta citação, você já se pegou remoendo algo que aconteceu há muitos anos? Talvez sofrendo por antecipação por algo que você nem sabia se iria de fato acontecer, não é verdade?
Pois é! A mente humana tem a capacidade de construir passados mentais e futuros imaginários. Embora isso tenha nos ajudado na evolução através dos tempos, também nos aprisionou quando perdemos a conexão com o momento que estávamos realmente vivendo, que é o único lugar real onde a vida acontece: O presente.
A Gestalt-Terapia nos ensinou que a saúde emocional depende da nossa capacidade de estar inteiro neste eterno aqui-e-agora, mesmo diante das dores, incertezas e desejos. É quando estamos presentes que algo se reorganiza internamente, independentemente, da nossa vontade.
A física quântica e a astrofísica moderna têm desafiado radicalmente essa percepção linear de tempo. Foi quando ouvi o físico Carlo Rovelli, autor de “A Ordem do Tempo”, afirmar que o tempo não flui do passado para o futuro como pensamos. Pois o presente é tudo o que realmente temos como algo real.
Já o astrofísico Brian Greene, em “The Fabric of the Cosmos“, explicou que o que chamamos de “passado” e “futuro” são apenas projeções baseadas em memórias e expectativas. Para o universo, tudo está acontecendo ao mesmo tempo, numa espécie de “eterno agora“.
Pois bem amigos, todas essas percepções estão perfeitamente alinhadas com a visão terapêutica da psicologia da Gestalt. Sabemos que o self só existe quando nos manifestamos no contato vivo com o mundo, isto é, momento a momento. Logo, o passado só existe porque o carregamos na memória. Mas, e o futuro? É algo feito de projeções, cálculos e expectativas. Raramente o futuro se concretizará como imaginamos lá no passado.
Segundo o psicólogo Philip Zimbardo, que foi o criador da teoria da perspectiva temporal, pessoas com foco excessivo no passado tendem a depressão emocional, enquanto aquelas presas ao futuro desenvolvem ansiedade crônica. Em outras palavras: Quem foge do presente sempre adoece de alguma forma. Voltando para a psicologia existencial da Gestalt, precisaremos elaborar o passado na psicoterapia, sim, mas jamais ficar preso nele. Planejar, mas com os pés fincados no presente para transformar os nossos traumas e escolhas ruins de ontem em possíveis bons destinos amanhã.
Na prática clínica, o que eu mais vejo são pessoas fragmentadas entre a culpa do passado e o medo do futuro. Elas ainda não perceberam que a chave da mudança está sempre no aqui-e-agora, que é um campo fértil, pois é onde a tristeza pode ser sentida e dissolvida. O aqui é onde a raiva reprimida pode ganhar voz e se transformar em ação criativa, gerando amor-próprio para nascer uma nova aceitação plena de quem somos momentaneamente.
Não foi à-toa que o famoso filósofo Martin Buber falava nas suas palestras: “Toda vida real é encontro. ” E o encontro só acontece no presente. Ao invés de você ficar buscando “felicidade” como um estado ideal no futuro hipotético, mas que nunca chega, devemos buscar experiências significativas no presente. Quando a sua vida for vivida com presença e entrega, elas te ajudarão a amadurecer em cada escolha autêntica.
Essa tal de felicidade não é um destino certo, é antes de tudo, um modo de caminhar, momento após momento, com consciência, coragem e abertura.
Se queremos transformação, precisamos estar “presentificados” sem querer mudar o passado para podermos criar um futuro melhor. Mas o eterno agora será sempre o nosso campo de criação, pois é aqui que mora a nossa verdadeira libertação.



