QUANDO O CIÚMES É UMA DOENÇA ?

 

     Quando um paciente me diz: “Fulano é meu...” seria um eufemismo de minha parte dizer que se trata apenas de uma figura de linguagem, pois na maioria das vezes, o que há mesmo, é um sentimento embutido de possessividade, conhecido vulgarmente como ciúmes.

     Evidentemente, não quero generalizar ou simplificar demais o quadro sintomático, que necessita ser amparado dentro de um contexto mais significativo, com um diagnóstico mais eficiente. No entanto, em caso afirmativo, é importante que este mal, seja detectado como uma doença séria e que não tem nada a ver com uma inofensiva “prova de amor” ou coisa parecida, é um desequilíbrio emocional que poderá vir a comprometer seriamente a vida toda do portador desta antiga patologia que agita os romances literários.

     É claro que qualquer pessoa que se sinta enciumada ao ver o seu objeto de amor recebendo investidas reais de algum concorrente, se sentirá aborrecida, e isto me parece algo perfeitamente compreensível, não é verdade? Aliás, desde que os hominídeos e seus descendentes na evolução das espécies, disputavam as fêmeas ou um macho para o acasalamento, que nos foi proporcionado um excelente processo de seleção natural, mas também, foi algo que ficou profundamente armazenado em nossos arquétipos coletivos, como uma espécie de herança comportamental.

     No entanto, a coisa muda totalmente de figura, quando o “homo sapiens” subverte o aspecto real e cede lugar para as situações delirantes, gerando desconfiança, medo e atitudes agressivas em nome de um amor que deveria projetar o bem estar do outro, mas, ao invés disto, passa a ser um objeto de projeção egoísta, posse e dominação vil, como nos tempos das cavernas...

     O delírio neurótico de ciúmes pode ser elucidativamente compreendido em três níveis: brando, intermediário e patológico, veja você mesmo a diferença entre eles nesta escala:

     O brando é quando um sujeito sente-se enciumado em questões vivenciais do dia a dia, sentindo-se excluído do grupo com o qual pertence ou ameaçado por um rival qualquer, diante do seu objeto de desejo. Havendo para isto, uma reação emocional mais ou menos forte. Porém, o diferencial é que nestes casos, há realmente uma ameaça externa sobre a sua relação. Costumo dizer que esta manifestação, está etiologicamente ligada a uma baixa auto-estima, associada a uma insegurança mal trabalhada desde a sua infância ou juventude.

 No nível intermediário, percebemos a presença de uma certeza “sem fundamento”. O ciumento(a), simplesmente acredita piamente que esta sendo traído. Evidentemente, é uma situação delirante de traição ou abandono. O sujeito vive intensamente um constante estado de tensão que tende a aumentar cada vez mais, levando-o a níveis insuportáveis de tensão psíquica. Neste nível, o ciumento não tem consciência da sua conduta mal adaptada e, ao invés disto, acredita mesmo ser uma vítima constante, produzindo situações fantasiosas de perseguição, conflitos e suspeitando constantemente de pessoas muito pouco prováveis de serem as culpadas das suas tramas imaginárias. Em outras palavras, eles sentem ciúmes até da relação de uma mãe com o seu filho ou vice-versa.

     Já no nível patológico, o conflito interno assume proporções desastrosas. O sujeito é acometido por uma patologia psiquiátrica grave, podendo apresentar um determinado grau de esquizofrenia, psicose ou associar-se com predisposições neuropsiquiátricas sérias que, poderão levá-lo a cometer crimes com um comportamento extremamente agressivo e, particularmente passional, que nestes casos, freqüentemente recheiam as colunas policiais dos jornais.

     Caso você se sinta assim ou conhece alguém com estes sintomas, saiba que existe um tratamento psicoterápico sério para impedir a evolução deste quadro patológico. Busque imediatamente uma ajuda profissional. Aliás, quanto mais cedo o paciente for atendido e realizado um diagnóstico diferencial, mais rápidos serão os resultados para uma vida melhor, com mais qualidade, e principalmente, saudável.

     Afinal, cá entre nós... Quem ama, também precisa ser amado de verdade, não é?

Dr. Marcos Calmon

CRP 05 / 32.619

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